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Derrota de Flávio enfraquece os Bolsonaro, mas não ofusca nova força da direita com eleições

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- Author, Leandro Prazeres
- Role, Da BBC News Brasil em Brasília
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- Tempo de leitura: 11 min
No segundo embate direto entre o lulismo e o bolsonarismo, o senador e filho mais velho de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), sofreu uma derrota considerada por muitos como inesperada e até mesmo surpreendente ao perder a disputa pela Presidência da República para o petista Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Lula chega, agora, ao seu quarto mandato, e a família Bolsonaro completa duas derrotas consecutivas para o petista. A anterior foi contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2022.
Com 99,9% das urnas apuradas, Lula foi declarado o vencedor das eleições, obtendo 51,77% dos votos válidos contra 48,23% de Flávio Bolsonaro.
Ao discursar após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarar a vitória do petista, o senador declarou, no entanto, que não vai reconhecer o resultado e que vai pedir a anulação do pleito, devido a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, de adiar o término da votação por duas horas, até 19h.
"É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico e vamos pedir a anulação dessas eleições", afirmou.
"A partir do momento que essa decisão foi tomada, tem muita coisa pra ser esclarecida antes de o Brasil simplesmente reconhecer essa sacanagem que ocorreu agora nessas eleições", acrescentou.
A campanha de Flávio, no entanto, fez um pedido formal pela prorrogação das eleições, assim como a de Lula.
O pedido de Lula foi enviado alegando que a redução das frotas de ônibus em algumas cidades dificultaram o processo eleitoral. Já a campanha de Flávio pediu o TSE a prorrogação da votação em São Paulo e algumas cidades do Sul, devido às fortes chuvas que atingiram a região.
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A derrota do candidato do PL neste domingo aconteceu em um contexto considerado improvável.
Flávio Bolsonaro chegou em primeiro lugar no primeiro turno das eleições, com 47,03% dos votos, enquanto Lula obteve 45,16%.
A dianteira era considerada confortável e a expectativa de vitória era também ancorada no fato de que nunca, desde a redemocratização do país, um candidato que chegou em segundo lugar no primeiro turno havia conseguido uma virada no segundo turno.
Nas últimas semanas, porém, as pesquisas de intenção de voto apontavam uma recuperação da popularidade de Lula.
No entanto, nas pesquisas do Instituto Datafolha e Quaest divulgadas no sábado (24/10), Flávio ainda aparecia numericamente à frente de Lula com 51% das intenções de votos válidos, contra 49% de Lula. O agregador de pesquisas da BBC News Brasil apontava Flávio com 48% das intenções de voto e Lula com 46%.
A derrota de Flávio chama ainda mais atenção porque ela acontece em meio a uma virada do país à direita nas eleições legislativas, com crescimento expressivo da participação do PL e de outros partidos de direita no Senado e na Câmara dos Deputados.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a vitória de Lula é fruto de uma combinação de fatores: a capacidade do petista de preservar uma base popular mesmo num contexto de desgaste do governo, a mobilização de sua campanha na reta final e os limites do bolsonarismo para construir uma maioria eleitoral nacional.
Eles alertam, porém, que a vitória de Lula não pode ser interpretada como uma aprovação irrestrita ao seu governo e que ela se deu, em grande parte, pela alta rejeição do sucessor de Jair Bolsonaro.

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A construção de Flávio
Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno das eleições como o favorito a vencer por diversos analistas. A tradicional consultoria internacional Eurasia apontava, no final da semana passada, que ele tinha 60% de chances de vencer as eleições, contra 40% de Lula.
Apesar de nunca ter disputado uma eleição presidencial, Flávio construiu uma candidatura que se mostrou competitiva desde o início do período eleitoral.
Ele tem 45 anos de idade, é advogado, político há mais de 20 e é filho mais velho de Jair Bolsonaro.
Aos 21 anos, foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro pela primeira vez, cargo para o qual foi reeleito outras três vezes, até que, em 2018, embalado pela campanha vitoriosa do pai à Presidência, foi eleito senador da República.
Ao longo de sua trajetória no Senado, o senador teve uma atuação relativamente discreta, marcada pela defesa da gestão do pai durante a pandemia de covid-19 e teve apenas dois projetos de lei aprovados pela Casa, segundo levantamento feito pelo jornal Valor Econômico.
Após a derrota de seu pai nas eleições de 2022, Flávio se tornou uma das principais vozes da oposição ao governo Lula.
A derrota neste domingo encerra, por ora, uma candidatura à Presidência construída e bancada pessoalmente por Jair Bolsonaro em meio à resistência de alas da própria direita.

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Até dezembro de 2025, quando o nome de Flávio foi anunciado, diversos grupos da direita aliados do ex-presidente defendiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como o nome ideal para disputar a eleição presidencial contra Lula.
À época, pesquisas de intenção de voto mostravam que Tarcísio era o nome mais competitivo entre os aventados na direita e capaz de enfrentar o petista.
Mesmo assim, Jair Bolsonaro determinou que seu sucessor nas urnas seria o filho mais velho, e Tarcísio acabou disputando e vencendo, no primeiro turno, a reeleição ao governo de São Paulo sobre o ex-ministro da Fazenda do governo Lula, Fernando Haddad (PT).
Ao longo da campanha, a estratégia da equipe de Flávio foi mostrá-lo como uma versão mais moderada do pai, que ficou conhecido por elogiar torturadores da ditadura militar brasileira, por se posicionar contra a vacinação durante a pandemia de covid-19, que matou mais de 700 mil pessoas no Brasil. Até agora, ele foi o único presidente que tentou a reeleição e perdeu.
Nos últimos meses, Flávio prometeu uma ofensiva sem precedentes contra o crime, incluindo a construção de mega presídios inspirados no modelo de El Salvador, o reforço do controle das fronteiras brasileiras, a adoção da castração química para criminosos sexuais e a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações narcoterroristas — uma medida que segue a linha adotada pelos Estados Unidos na região.
A candidatura de Flávio também foi fustigada por uma sucessão de suspeitas e investigações. Às vésperas do segundo turno, ele era alvo de pelo menos duas apurações no STF.
Uma delas investiga suspeitas de lavagem de dinheiro que teriam sido praticadas em parceria com o advogado e seu amigo pessoal Willer Tomaz.
A outra apura suposta lavagem de dinheiro, corrupção e outros possíveis crimes relacionados ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio nega ter cometido irregularidades nos dois casos.
No caso de Dark Horse, Flávio negociou diretamente com o então banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e que está preso desde março deste ano por suspeitas de crimes financeiros, um repasse de cerca de R$ 134 milhões para financiar o filme.
Segundo a Polícia Federal, quase R$ 70 milhões foram efetivamente repassados e há suspeita de que parte do dinheiro tenha sido desviada para custear despesas de seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos. Eduardo, por sua vez, nega ter sido beneficiado pelos recursos do filme.
Flávio rebateu a suspeita e diz que sua ligação com Vorcaro se tratava apenas da busca por "patrocínio privado para um filme privado, sem absolutamente nenhuma contrapartida".
Segundo ele, o encontro que teve com Vorcaro depois da primeira prisão do banqueiro, no final de 2025, foi para encerrar a relação dele com o banqueiro.
A outra investigação envolve sua relação com o advogado e empresário Willer Tomaz.
A PF encontrou no celular do advogado referências a festas, encontros e reuniões entre os dois e um registro no qual Flávio aparecia como "usuário master" de uma conta bancária da Alcazar Holding, uma empresa com sede em Portugal vinculada a Willer.
Os investigadores também analisam suspeitas relacionadas ao setor de apostas e empresas de pagamentos.
Do seu lado, Flávio reconheceu ser amigo pessoal de Willer Tomaz, mas contestou a informação de que já houvesse um novo inquérito formalmente instaurado e disse que apresentar o caso dessa forma distorcia a realidade.
O escritório de Willer, por sua vez, afirmou que Flávio jamais teve acesso ou poderes sobre contas de empresas do advogado.
Flávio também carregou durante a campanha acusações mais antigas. Uma delas é o chamado caso das "rachadinhas", revelado em 2018, quando o Ministério Público do Rio de Janeiro passou a investigar a suspeita de que funcionários do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa devolvessem parte de seus salários a Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete do parlamentar.
Flávio chegou a ser denunciado por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro, mas o mérito das acusações não chegou a ser julgado. O caso foi encerrado em 2025 após a anulação de provas.

Crédito, EPA/Shutterstock; Reuters
Outra fonte recorrente de desgaste são as suspeitas de supostos vínculos do senador com milicianos do Rio de Janeiro.
Flávio empregou no antigo gabinete parentes de Adriano da Nóbrega, ex-capitão da Polícia Militar, posteriormente acusado de chefiar uma organização de assassinos de aluguel que atuava para o crime organizado no Rio de Janeiro.
Mais recentemente, uma investigação encontrou diálogos entre uma assessora de Flávio e Robson Calixto, conhecido como "Peixe", condenado por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco, relacionados à liberação de uma emenda parlamentar de R$ 199 mil.
Flávio respondeu afirmando que a emenda foi destinada dentro da legislação e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte e que eventuais irregularidades na aplicação dos recursos devem ser investigadas pelos órgãos de controle.
Para o professor de Ciência Política da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marco Antônio Teixeira, porém, seria equivocado atribuir a derrota diretamente às acusações contra o senador.
"As denúncias não colaram nem no Lula nem no Flávio Bolsonaro. Em alguns casos, já eram conhecidas do público. Apesar de todas essas denúncias, os dois candidatos estiveram muito perto dos seus tetos de intenção de voto. Por isso chegaram até aqui", disse Teixeira à BBC News Brasil.
Lula x bolsonarismo: o segundo round

Crédito, REUTERS/Amanda Perobelli
Para Teixeira, a vitória de Lula teria um valor especial por acontecer no segundo confronto presidencial consecutivo entre os dois campos políticos que dominaram a disputa nacional nos últimos anos.
"A vitória do Lula, obviamente, no conflito de uma competição tão acirrada como foi essa, representa significativamente uma derrota do bolsonarismo", afirmou.
Segundo ele, o resultado também mostra que os vínculos de parte do eleitorado com Lula vão além da avaliação do terceiro mandato.
"O lulismo vem se mantendo forte também pelo contraponto ao bolsonarismo, mas ele não venceu apenas por si só. Há uma parte da população que talvez não se veja representada por Lula, mas que rejeita fortemente o bolsonarismo. A esquerda também não conseguiu alternativa ao Lula", afirma.
A cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Luciana Santana também avalia que parte da explicação para a derrota de Flávio é resultado de uma relação antiga construída pelo eleitorado com o candidato petista.
"O lulismo ultrapassa a avaliação de uma gestão. O eleitor tem uma memória, uma identificação social, o reconhecimento da trajetória de Lula e a expectativa de proteção em momentos de insegurança econômica", diz a professora.
"Esses vínculos podem conviver com críticas ao governo. O eleitor podia até estar insatisfeito e, ainda assim, confiou que Lula é a alternativa mais confiável do que a que foi apresentada pelo bolsonarismo."
Ela também diz acreditar que a vitória de Flávio não pode ser vista como uma adesão automática à plataforma lulista.
"Independentemente de quem ganhar ou não, é importante entender que aquele que ganhou não necessariamente venceu por um apoio àquele político em si. Muitas vezes, pode representar uma alta rejeição a um outro candidato. Isso também é resultado da ausência de outras alternativas políticas viáveis neste pleito", diz.
A rejeição aos candidatos, aliás, foi sempre um dos elementos mais explorados pelos dois candidatos. E, na reta final, a campanha petista conseguiu aumentar a taxa de rejeição a Flávio.
Entre o fim do primeiro turno e o final do segundo, a rejeição a Flávio Bolsonaro saiu de 43% para 45% do eleitorado, enquanto a de Lula terminou em 46%, segundo pesquisa Datafolha divulgada no sábado, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Em algumas peças veiculadas na televisão e no rádio, apresentou a eleição como uma oportunidade para "descartar" Lula. Durante a maior parte da eleição, a estratégia parecia estar dando resultado.
Pesquisas de opinião pública mostravam que a taxa de reprovação ao governo Lula era superior à sua aprovação.
Na pesquisa realizada entre 20 e 22 de outubro, porém, Lula viu sinais de melhora e 49% dos entrevistados disseram aprovar o seu governo, enquanto 48% diziam desaprová-lo.
Apesar dos esforços de sua campanha, Flávio parece não ter conseguido derrubar resistências antigas ao bolsonarismo junto ao eleitorado brasileiro.
Uma pesquisa da Quaest, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais e para menos, divulgada no sábado, mostra que ele tinha apenas 41% das intenções de voto no eleitorado feminino, enquanto Lula aparecia com 49%.
A resistência era semelhante junto ao eleitorado católico. Lula aparecia com 51% das intenções de voto, enquanto Flávio tinha apenas 41%.
Nem mesmo a ampla vantagem que ele parecia ter entre os evangélicos (60% a 30%) foi suficiente para reverter a vitória do petista.
O editor-chefe da revista Americas Quarterly, Brian Winter, já havia ressaltado durante a campanha que, apesar do desgaste do governo, Lula permanecia um adversário com capacidade política incomum.
"Lula é o político mais talentoso de sua geração. Até os rivais dele dizem que isso é verdade. Ele está no centro do palco há quase quatro décadas", disse Winter.
O bolsonarismo sobrevive à segunda derrota?

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A segunda derrota presidencial consecutiva da família Bolsonaro não significa necessariamente o enfraquecimento imediato do movimento criado em torno do ex-presidente.
Marco Antônio Teixeira, da FGV, por exemplo, avalia que a derrota de Flávio enfraquece a família, mas não elimina seu poder.
"A família Bolsonaro se enfraquece, mas ela tem o PL com quase 120 na mão. Nem todos são bolsonaristas, mas a maior parte deles depende do bolsonarismo para viver. O PL vai ter uma bancada numerosa na Câmara e no Senado", afirmou.
Além disso, a família Bolsonaro conseguiu uma projeção sem precedentes no Brasil desde a redemocratização. Apesar da derrota de Flávio, a família conseguiu eleger três integrantes para o Congresso Nacional.
A mulher de Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro (PL-DF), foi a senadora mais votada do Distrito Federal neste ano. Outros dois filhos do ex-presidente também conseguiram se eleger. Carlos e Jair Renan serão senador e deputado federal pelo Estado de Santa Catarina a partir do próximo ano.
Mesmo perdendo para o PT, o PL da família Bolsonaro e outras forças de direita saíram fortalecidos da eleição e deverão formar uma maioria ideologicamente distante do presidente, o que deverá dificultar a aprovação de pautas de interesse do presidente Lula.
E isso ainda pode ter outros efeitos, como a formação de uma maioria no Senado capaz de aprovar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ou mesmo barrar indicações feitas por Lula para ocupar novas cadeiras na Corte. A expectativa é de que Lula possa indicar mais quatro ministros, com as saídas previstas para os próximos quatro anos.
Outra área em que a força da direita no Congresso deverá prevalecer é na pauta ambiental.
A bancada da direita é tradicionalmente composta por parlamentares que defendem os interesses do agronegócio e, com tanta força, eles podem obter maioria para mudar a legislação ambiental.
Durante a campanha, por exemplo, Flávio prometeu flexibilizar processos de licenciamento ambiental, fiscalizar o financiamento de organizações não-governamentais ambientais e acabar com o que chamou de "entraves ambientais ideológicos". Parte dessas medidas pode ser feita pelo Legislativo.
Teixeira avalia, contudo, que a força do bolsonarismo no Congresso terá de competir com o poder de atração que os governos eleitos normalmente exercem sobre o Centrão.
"Esses partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro no segundo turno adoram a força da gravidade rumo ao Poder Executivo. Estiveram no governo Fernando Henrique (PSDB), com Lula, estiveram no governo Dilma (Rousseff), derrubaram ela, estiveram com Bolsonaro e certamente não vão deixar de estar com Lula, de novo, neste momento", diz.
"Afinal, tem emenda parlamentar e um conjunto de ministérios que são de interesse direto desses partidos", disse.



























